NOSSAS REDES

POLÍTICA

O Lula de 2010 e o Lula de 2024

PUBLICADO

em

Thomas Traumann

Luiz Inácio Lula da Silva completa hoje, dia 1º, dez anos como presidente do Brasil. Apenas d.Pedro II, entre 1831 até 1889, e Getúlio Vargas, entre 1930-45 e depois 1951-54, comandaram o país por mais tempo, com a diferença brutal de que Lula foi eleito três vezes pelo voto popular. Ao longo de três mandatos, Lula enfrentou a desconfiança do mercado financeiro em 2003, o escândalo do Mensalão de 2005, a crise financeira mundial de 2008, a recessão de 2009 e os preparativos de um golpe militar em 2023, implantou políticas públicas exitosas como o Bolsa Família e o ProUni, fez o Brasil crescer com distribuição de renda e se marcou como um raro líder capaz de gerar consensos entre a esquerda e a direita.

2024, contudo, foi o ano em que este Lula experiente, capaz de unir o País, superar adversidades e agregar opostos, sumiu. Surgiu um outro Lula, mais centralizador, impaciente, convicto de suas certezas e menos disposto a ouvir discordâncias. É um governo que reciclou projetos antigos (PAC, Mais Médicos etc.), sem entender circunstâncias novas, como as redes de solidariedade das igrejas evangélicas, o apelo do empreendedorismo e a resistência ideológica às vacinas. É como se o governo não aceitasse uma premissa básica da sua existência: Lula foi eleito não pelos seus méritos, mas pelos deméritos de Jair Bolsonaro.

Faltando dois anos para o fim do seu terceiro mandato, a questão é se Lula vai dobrar a aposta no modelo 2024 ou se volta ao estilo 2010.

O terceiro governo Lula tem resultados contraditórios. Houve evidentes avanços na macroeconomia, com dois anos seguidos de crescimento acima de 3%, desemprego no índice mais baixo da história recente, massa salarial recorde, aprovação da reforma tributária e assinatura das bases do acordo Mercosul-União Europeia.

A condução da política econômica, contudo, foi de zigue-zague, com o ministro Fernando Haddad servindo de bombeiro para tentar atenuar as contradições de um governo que sabe que precisa de um ajuste fiscal, mas odeia ter de fazê-lo. Lula anunciou que pretendia rever a meta de inflação de 3% ao ano, e depois autorizou que essa mesma meta fosse prolongada para a eternidade. Depois disse que poderia rever a autonomia do Banco Central, para enfim não fazer nada. Disse que não acreditava na meta fiscal de déficit abaixo de 0,3% em 2024, mas autorizou o bloqueio de mais de R$ 20 bilhões do orçamento para cumprir o alvo. Ordenou que a Petrobras não distribuísse dividendos e recuou diante da reação do mercado. Repetiu diversas vezes que Roberto Campos Neto estava usando o Banco Central para boicotar o seu governo e indicou como substituto um diretor que votou quase sempre igual a Campos Neto. Finalmente, Lula encomendou a Haddad um projeto de ajuste no crescimento das despesas públicas que, depois de quatro semanas de reuniões ministeriais, se tornou um pacote para reduzir impostos, sem que ainda esteja claro como essa isenção será paga. Desde o fracasso do anúncio do pacote fiscal, o Brasil virou um ativo tóxico no mercado internacional, com dezembro marcando a maior saída de dólares desde a crise cambial de 1998. A cotação do dólar está em R$6,10 porque mesmo dentro do governo os ministros não sabem o rumo que o presidente pretende dar à economia.

Continua após a publicidade

O ano que se inicia será difícil e os problemas imediatos não serão internos, mas externos. O novo mandato de Donald Trump será turbulento e a ilusão do governo brasileiro de que o presidente americano é apenas uma versão temperamental de George W. Bush é estúpida, para dizer o mínimo. Na hipótese mais benigna, Trump vai iniciar uma guerra comercial mundial com efeitos diretos nas exportações. No caso mais maligno, o Brasil será alvo de retaliações em defesa dos interesses das empresas de Elon Musk. O governo e as empresas brasileiras estão despreparados para o tsunami.

A ascensão de autoritários como Donald Trump, que exigem obediência e não parceria de outros países, é o ponto mais visível da montanha de mudanças desde 2010, quando Lula deixou a presidência no auge da popularidade, e 2024, quando gerou uma desnecessária corrida ao dólar por temer perder pontos de popularidade.

Entre o segundo e o terceiro mandato de Lula, o Judiciário passou a legislar, investigar e condenar; o Congresso tomou para si a maior parte do orçamento; as Forças Armadas voltaram a ter sonhos golpistas; Jair Bolsonaro organizou a extrema direita popular; as redes sociais se tornaram a fonte de informação política; as igrejas evangélicas assumiram que querem ditar em lei o comportamento de todos os brasileiros; o mercado financeiro e o agronegócio viraram os mais poderosos eixos da economia; e o Centrão voltou mais forte do que nunca. No mesmo período, perderam poder os sindicatos de trabalhadores, a indústria, a mídia e a presidência da República.

Continua após a publicidade

Nesses dois anos do terceiro mandato, o presidente se isolou nos Palácios do Planalto e do Alvorada como não havia feito nem nos piores dias do Mensalão. Conta-se nos dedos das mãos quais os ministros que têm acesso direto a Lula: Rui Costa, Fernando Haddad, Alexandre Padilha, Alexandre Silveira, o novo xodó Camilo Santana, o assessor Celso Amorim e o “garoto de ouro” do Banco Central, Gabriel Galípolo. Outros ministros só recebem atenção direta do presidente nas viagens. Mesmo quem tem acesso a Lula, reconhece um presidente menos disposto a ouvir más notícias.

Lula recebe poucos empresários e quando o faz, se auto elogia mais do que escuta. A dificuldade de Lula com a elite hoje é comparável com a de Bolsonaro no auge da pandemia de Covid.

Os políticos de situação são unânimes em comparar suas dificuldades de acesso em relação aos mandatos passados – embora muito dessa distância seja uma forma de Lula se preservar de pedidos que não quer ter o desgaste de negar.

Os próximos dois anos vão exigir mais de Lula do que os últimos dois. Será um futuro com um Trump imprevisível, o mercado financeiro desconfiado e economia sofrendo com juros altos. O sucesso de Lula em lidar com esses desafios vai depender de qual Lula vai estar no comando.



Leia Mais: Veja

Advertisement
Comentários

Warning: Undefined variable $user_ID in /home/u824415267/domains/acre.com.br/public_html/wp-content/themes/zox-news/comments.php on line 48

You must be logged in to post a comment Login

Comente aqui

OPINIÃO

Opinião: A ciranda troca de partidos e a busca por cargos públicos

PUBLICADO

em

Foto de capa [arquivo pessoal]
Os parlamentares que mudam de partido – como macacos puladores de galho – ou se candidatam a outros cargos no Legislativo e no Executivo apenas para preservar privilégios demonstram desrespeito à República e deveriam sentir vergonha de tal conduta. Essa prática evidencia a ausência de compromisso ideológico e a busca incessante por posições de poder, transmitindo à sociedade a imagem de oportunistas movidos por conveniências pessoais. A política deveria ser encarada como missão cívica, exercício de cidadania e serviço transitório à nação. Encerrado o mandato, o retorno às profissões de origem seria saudável para a oxigenação da vida pública.  
.
Infelizmente, o sistema político brasileiro está povoado por aqueles que veem na política não um espaço de serviço público, mas um negócio lucrativo. Como já destacou o jornal El País, ser político no Brasil é um grande negócio, dadas as vantagens conferidas e auferidas — e a constante movimentação de troca de partidos confirma essa percepção.  
.
A cada eleição, o jogo se repete: alianças improváveis, trocas de legenda na janela partidária e negociações de bastidores que pouco têm a ver com as necessidades reais da população. Em vez de missão cívica, vemos aventureiros transformando a política em palco de interesses pessoais e cabide de empregos. A busca incessante pela reeleição e por cargos demonstra que, para muitos, a política deixou de ser a casa do povo e tornou-se um negócio.  
.
Convém lembrar aos que se consideram úteis  e insubstituíveis à política que o cemitério guarda uma legião de ex-políticos esquecidos, cuja ausência jamais fez falta ao país.  
.
As próximas eleições são a oportunidade para os eleitores moralizarem o Legislativo, elegendo apenas candidatos novos, sem os vícios da velha política, que tenham conduta ilibada e boa formação cultural. Por outro lado, diga não à reeleição política, aos trocadores de partidos, aos que interromperam o mandato para exercer cargos nos governos, e àqueles que já sofreram condenação na Justiça ou punição no Conselho de Ética do Legislativo. 
.
Júlio César Cardoso
Servidor federal aposentado
Balneário Camboriú-SC

Continue lendo

POLÍTICA

Frase do dia: Ciro Gomes

PUBLICADO

em

Frase do dia: Ciro Gomes

Matheus Leitão

Frase do dia: Ciro Gomes | VEJA

Relâmpago: Digital Completo a partir R$ 5,99

“Estou muito envergonhado! Isto é uma indignidade inexplicável!” (Ciro Gomes, ex-ministro da Fazenda, usando as redes sociais para reclamar da troca de Carlos Lupi por Wolney Queiroz, seu desafeto no PDT, no comando do Ministério da Previdência Social) 


VEJA

Digital Completo

Acesso ilimitado ao site, edições digitais e acervo de todos os títulos Abril nos apps*

Apenas 5,99/mês

DIA DAS MÃES

Revista em Casa + Digital Completo

Receba 4 revistas de Veja no mês, além de todos os benefícios do plano Digital Completo (cada revista sai por menos de R$ 9)

A partir de 35,90/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
Pagamento único anual de R$71,88, equivalente a R$ 5,99/mês.


PARABÉNS! Você já pode ler essa matéria grátis.

Comscore

//www.instagram.com/embed.js



Leia Mais: Veja

Continue lendo

POLÍTICA

Charge do JCaesar: 05 de maio

PUBLICADO

em

Charge do JCaesar: 05 de maio

Felipe Barbosa

Charge do JCaesar: 05 de maio | VEJA

Relâmpago: Digital Completo a partir R$ 5,99


VEJA

Digital Completo

Acesso ilimitado ao site, edições digitais e acervo de todos os títulos Abril nos apps*

Apenas 5,99/mês

DIA DAS MÃES

Revista em Casa + Digital Completo

Receba 4 revistas de Veja no mês, além de todos os benefícios do plano Digital Completo (cada revista sai por menos de R$ 9)

A partir de 35,90/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
Pagamento único anual de R$71,88, equivalente a R$ 5,99/mês.


PARABÉNS! Você já pode ler essa matéria grátis.

Comscore

//www.instagram.com/embed.js



Leia Mais: Veja

Continue lendo

MAIS LIDAS