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Os idiomas secretos criados por gêmeos para se comunicar – 03/11/2024 – Cotidiano

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Krupa Padhy

Para os gêmeos Matthew e Michael Youlden, o idioma criado por eles se tornou uma forma normal de comunicação

Os gêmeos Matthew e Michael Youlden falam 25 idiomas. E há um 26º, chamado umeri, que eles não incluem nesta conta.

Se você nunca ouviu falar em umeri, saiba que existe uma boa razão para isso. Michael e Matthew são as únicas pessoas que falam, leem e escrevem o idioma —que eles próprios criaram quando eram crianças.

Os irmãos defendem que o umeri não é uma língua criada intencionalmente para ser secreta.

“O umeri não se resume a um idioma usado para manter os assuntos em particular”, afirmam eles por e-mail. “Ele simplesmente tem um valor muito sentimental para nós e reflete os profundos laços que nos unem, como gêmeos idênticos.”

Calcula-se que 30 a 50% dos gêmeos desenvolvem uma língua compartilhada ou padrões de comunicação específicos que só são compreensíveis entre eles. Este fenômeno é conhecido como criptofasia —que, em grego, significa “fala secreta”.

Nancy Segal é diretora do Centro de Estudos sobre Gêmeos da Universidade Estadual da Califórnia, nos Estados Unidos. Ela destaca que existem, atualmente, palavras melhores e mais sutis para descrever o fenômeno. Segal prefere a expressão “fala privada”.

No seu livro “Twin Mythconceptions” (algo como “mitos e equívocos sobre os gêmeos”), a autora também se refere à fala usada pela dupla como “compreensão verbal compartilhada”.

“Com base nos estudos disponíveis, é seguro afirmar que cerca de 40% dos bebês gêmeos adotam algum tipo de ‘fala entre gêmeos'”, escreve Segal. “Mas este número simplesmente não expressa como pode ser complexo o desenvolvimento da linguagem dos gêmeos.”

O holandês Roy Johannink é pai dos gêmeos adolescentes Merle e Stijn.

Treze anos atrás, ele fez um vídeo dos bebês conversando entre si e compartilhou no YouTube. O diálogo dos gêmeos já teve mais de 30 milhões de visualizações.

Johannink teve a sorte de ter a câmera à mão no exato momento em que os dois começaram a interagir verbalmente entre si.

“Fiquei um pouco surpreso quando eles se viram”, relembra o pai. “Eles pensaram: ‘ei, agora não estou sozinho. Existe outro eu! Somos nós contra o mundo!”

Segal explica que, como Merle e Stijn (que perderam sua linguagem compartilhada quando aprenderam holandês), a maioria dos gêmeos abandona suas palavras particulares quando aumenta sua exposição a outras pessoas fora de casa.

Mas, para os gêmeos Youlden, foi diferente. Eles não abandonaram seu idioma próprio. Pelo contrário, eles o enriqueceram e aperfeiçoaram ao longo dos anos.

Nascidos e criados em Manchester, no Reino Unido, os gêmeos Youlden cresceram rodeados por diferentes etnias e culturas, desenvolvendo o amor pelos idiomas.

As lembranças das origens do umeri são nebulosas. Mas os irmãos se lembram do seu avô ficando confuso, quando eles estavam na pré-escola e contavam uma piada entre eles que o avô não entendia.

Depois, vieram as primeiras férias da família no exterior, aos oito anos de idade. Eles viajaram para a Espanha e decidiram aprender espanhol. Os irmãos acreditavam que, se não aprendessem a língua, teriam dificuldade para pedir sorvete.

Armados com um dicionário e algum conhecimento de gramática, eles começaram a traduzir frases palavra por palavra, do inglês para o espanhol.

Depois, eles aprenderam italiano e voltaram sua atenção para os idiomas escandinavos. E, reunindo diversos elementos gramaticais de todas as línguas que estudaram, os irmãos perceberam que o umeri poderia realmente passar a ser um idioma totalmente independente.

O histórico coincide com as pesquisas de Segal. Segundo ela, geralmente, “os gêmeos não inventam um novo idioma. Eles tendem a produzir formas atípicas da língua a que são expostos. Mesmo que seja ininteligível, eles ainda as direcionam para outras pessoas.”

Os gêmeos Youlden começaram a padronizar e codificar o umeri. Em dado momento, eles chegaram a projetar seu próprio alfabeto, mas perceberam —quando ganharam seu primeiro computador— que seu uso seria limitado, já que não existia a fonte umeri. Por isso, o umeri agora é escrito com o alfabeto latino.

Idioma compartilhado

Preservar um idioma falado por poucas pessoas tem seus desafios.

“Os gêmeos têm este idioma compartilhado que, em algum momento, eles deixam de usar, como se sentissem vergonha dele”, segundo Matthew. “E não é algo exclusivo dos idiomas dos gêmeos.”

Qualquer pessoa que fale um idioma minoritário – ou seja, que não é falado por grande parte da sociedade – pode crescer com vergonha de falar aquela língua, “especialmente se você for criado com um idioma minoritário, o que pode deixar você no ostracismo ou gerar olhares estranhos na escola”, ele conta. “Felizmente, nunca tivemos isso.”

Pelo contrário, na casa dos Youlden, seus pais nunca criticaram o desenvolvimento do umeri entre os irmãos. Quando os gêmeos se afastavam da família estendida para conversar no seu próprio idioma, a reação costumava ser “eles saíram para fazer aquilo da língua de novo”, relembra Matthew.

Karen Thorpe é especialista em pesquisa sobre assistência, educação e desenvolvimento infantil do Instituto do Cérebro da Universidade de Queensland, na Austrália. Em cargos anteriores, ela estudou extensamente o desenvolvimento da linguagem entre irmãos gêmeos.

“Para mim, é questão de um relacionamento muito próximo”, afirma ela.

“Em vez de considerar estranho e incomum, o idioma particular, na verdade, é sobre algo belo que os humanos fazem quando são muito, muito próximos entre si. Mas é exclusivo dos gêmeos? Acho que não. Acho que é exclusivo dos relacionamentos muito próximos e especiais.”

Ela também considera que esta é uma característica normal do desenvolvimento. No seu relatório de pesquisa de 2010, ela escreveu que “são apenas crianças jovens que estão começando a falar e tendem a se entender entre si um pouco melhor do que seus pais ou outros adultos”.

Em outros casos, como os Youldens, os idiomas são uma combinação de proximidade e curiosidade intelectual, mas Thorpe afirma que desenvolver conscientemente um idioma particular a longo prazo é algo relativamente raro.

Existem alguns estudos de caso disponíveis sobre a criptofasia, ou a “linguagem dos gêmeos”. Alguns dos mais conhecidos se baseiam na psiquiatria.

June e Jennifer Gibbons são um exemplo. As gêmeas nascidas em Barbados foram criadas no País de Gales nos anos 1970.

Uma das irmãs contou à BBC que elas tiveram um impedimento de fala e sofreram bullying na escola. Por isso, elas deixaram de falar com os demais e só conversavam entre si.

Para as outras pessoas, seus diálogos pareciam incompreensíveis —incluindo seus próprios pais.

Aos 19 anos, depois de serem presas por crimes como incêndios provocados e roubo, elas foram enviadas para Broadmoor, um hospital psiquiátrico de alta segurança na Inglaterra. Elas foram as mulheres pacientes mais jovens do hospital.

“Estávamos desesperadas, ficamos presas na nossa condição de gêmeas e capturadas naquele idioma. Tentamos de tudo para nos separarmos”, contou June sobre suas vidas a um podcast da BBC do País de Gales.

A maioria dos gêmeos esquece a linguagem compartilhada exclusivamente entre si quando eram bebês, mas eles retêm certas palavras e características da comunicação não verbal, como gestos, segundo Thorpe.

“Eles podem não ter o que chamaríamos de idioma exclusivo, mas têm algo que é muito especial”, ressalta ela.

Seu trabalho também concluiu que os gêmeos apresentam risco um pouco maior de atrasos na linguagem, mas ter um idioma particular não contribui necessariamente para isso.

Pesquisas indicam que o atraso da linguagem é mais provavelmente associado à menor atenção individual dos adultos com os gêmeos. Partos prematuros e complicações da gravidez e do nascimento também podem influenciar o processo.

“Uma coisa que digo aos pais é: cuidem para falar com seus filhos um de cada vez, para que eles sejam expostos à linguagem”, recomenda Segal.

“Um problema com os gêmeos é que os pais tendem a deixá-los sozinhos porque eles entretêm mutualmente, mas, com isso, eles não recebem os modelos de linguagem dos adultos.”

Para os gêmeos Youlden, a criação do umeri foi simplesmente uma experiência positiva.

O idioma se desenvolve constantemente, à medida que os irmãos criam novas palavras para coisas que surgiram com a vida moderna. “Seja ‘iPad’ ou ‘cabo USB’ – são palavras que não existiam 20 ou 30 anos atrás”, comenta Matthew.

Agora, eles dirigem sua própria empresa de coaching de línguas, que ajuda indivíduos, instituições educacionais e companhias particulares no aprendizado de idiomas. Michael mora nas ilhas Canárias e Matthew, no País Basco, ambos na Espanha.

Os irmãos ainda conversam entre si em umeri. Mas eles não pretendem transmitir o idioma para os filhos que tiverem no futuro. Eles acham estranho compartilhar sua língua particular com outras pessoas.

“É um idioma único, falado por duas pessoas”, explica Michael.

“É uma daquelas coisas que, infelizmente, têm data de validade.”

Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Innovation.



Leia Mais: Folha

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Projeto de extensão seleciona resumos expandidos para publicação — Universidade Federal do Acre

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O projeto de extensão ComunicAÇÃO, da Ufac, realiza processo seletivo para submissão de trabalhos extensionistas, na modalidade de resumo expandido. Os selecionados comporão a Coleção de Cadernos de Extensão “Ufac e Comunidade”. As inscrições estão abertas até 30 de junho, por meio de formulário online.

O trabalho inscrito deve estar contemplado em uma das áreas temáticas: comunicação, cultura, direitos humanos e justiça, educação, meio ambiente, saúde, tecnologia e produção, trabalho. Cada resumo deverá estar vinculado a uma ação de extensão (projeto, curso, evento ou programa) institucionalizada na Ufac.

“O resumo expandido deverá evidenciar, de forma clara e consistente, as experiências adquiridas e/ou vivenciadas junto à comunidade externa ao longo do desenvolvimento da ação de extensão, destacando as interações estabelecidas, os impactos gerados, os aprendizados construídos e as contribuições mútuas decorrentes da execução das atividades”, detalha o item 3.1 do edital.

A seleção consiste em avaliação por uma comissão que indicará 50 trabalhos aptos para publicação na 1ª Edição da Coleção de Cadernos de Extensão, considerando a formatação e os aspectos científicos, além do envolvimento da comunidade externa, dos resultados obtidos e da efetividade da metodologia proposta. O resultado final do processo seletivo está previsto para 21 de agosto.

Para mais informações sobre o certame, leia o edital Proex n.º 9.1/2026.

 



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Reitora da Ufac participa de fórum Brasil-África em Brasília — Universidade Federal do Acre

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A reitora da Ufac, Guida Aquino, participou, nessa segunda-feira, 25, em Brasília, do 1º Fórum de Reitores Brasil-África. A convite do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do Ministério da Educação (MEC), ela representou a Ufac no encontro, acompanhada da pró-reitora de Inovação e Tecnologia, Almecina Balbino Ferreira. O evento segue até quarta-feira, 27, e tem como foco o fortalecimento da cooperação internacional em educação superior entre universidades brasileiras e instituições africanas.

Guida destacou a importância da presença da Ufac em um espaço voltado ao diálogo internacional e à construção de parcerias acadêmicas. Segundo a reitora, a aproximação entre Brasil e África por meio da educação, da pesquisa, da inovação e da troca de experiências permite avançar em soluções conjuntas para desafios comuns. “Temos histórias, identidades e desafios que nos aproximam, e a universidade tem um papel fundamental nessa conexão”, afirmou.

O fórum é uma iniciativa liderada pelo MEC, pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior e pela Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior. A programação reúne reitores, pró-reitores e assessores de cooperação internacional de universidades federais, estaduais e privadas do Brasil, além de representantes de universidades africanas mobilizadas pela Associação de Universidades Africanas.

Reitora da Ufac participa de fórum de reitores em Brasília-vice.jpg

A proposta do encontro é ampliar as relações acadêmicas entre Brasil e África, com a construção de novos acordos institucionais, programas de mobilidade estudantil, intercâmbio científico e cooperação em áreas estratégicas como agricultura, energias renováveis, mineração, petróleo e gás, setor aeroespacial, inteligência artificial e ciências humanas.

A programação inclui painéis temáticos, reuniões bilaterais, workshops e sessões voltadas à construção de novas parcerias universitárias. Ao final do evento, os resultados e compromissos construídos serão formalizados na Carta de Brasília do 1º Fórum de Reitores Brasil-África, documento que deve orientar os próximos passos da cooperação entre universidades brasileiras e africanas.

 



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Ufac conquista 3º lugar em hackathon internacional promovido por laboratório de Harvard — Universidade Federal do Acre

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Estudantes da Universidade Federal do Acre (Ufac) participaram, nos dias 10 e 11 de abril, do HSIL Hackathon 2026, promovido pelo Health Systems Innovation Lab da Harvard T.H. Chan School of Public Health. A participação da equipe ocorreu no Hub de Inovação do Hospital das Clínicas de São Paulo, o InovaHC, em uma edição realizada simultaneamente em mais de 30 países. O grupo conquistou o 3º lugar geral entre mais de 30 equipes com o projeto Viginutri, solução voltada à prevenção da desnutrição hospitalar.

A equipe foi liderada pela acadêmica de Medicina da Ufac Maria Júlia Bonelli Pedralino e contou com a participação de Guilherme Félix, do curso de Sistemas de Informação, Bruno Eduardo e Wesly, do curso de Medicina. Segundo Maria Júlia, representar o Acre e a Ufac em um evento dessa dimensão foi uma experiência marcante para sua trajetória acadêmica e pessoal. “O Acre tem muito a dizer nos espaços onde o futuro da saúde está sendo construído”, afirmou.

O projeto premiado, Viginutri, foi desenvolvido durante o hackathon em São Paulo e propõe uma solução para auxiliar no enfrentamento da desnutrição hospitalar, problema que pode afetar o prognóstico de pacientes internados e gerar impactos para a gestão hospitalar. A proposta une medicina e nutrição e será aperfeiçoada a partir da premiação recebida pela equipe.

Com a classificação, o grupo garantiu uma aceleração de um ano pela Associação Brasileira de Startups de Saúde, com mentoria especializada e a perspectiva de validar a solução em um hospital real. De acordo com Maria Júlia, a conquista abre a possibilidade de levar uma ideia desenvolvida por estudantes da Ufac para uma etapa de aplicação prática.

A estudante também ressaltou o apoio recebido da Pró-Reitoria de Inovação e Tecnologia da Universidade Federal do Acre (Proint) e da Pró-Reitoria de Extensão e Cultura (Proex). Segundo ela, a conquista só foi possível porque a universidade acreditou no projeto e ofereceu as condições necessárias para que o grupo representasse a instituição fora do Acre. “Essa conquista não teria sido possível sem o apoio da Proint e Proex”, disse.

A trajetória do grupo teve início em um hackathon realizado anteriormente no Acre, onde surgiu o projeto Sentinelas da Amazônia, experiência que contribuiu para a formação da equipe e para o interesse dos estudantes em iniciativas de inovação.

Como desdobramento da participação no evento, a equipe deve promover, no dia 12 de junho, às 10h30, no Sebrae Lab, no Centro de Convivência, uma roda de conversa sobre a experiência no hackathon, com o objetivo de incentivar outros acadêmicos a buscarem pesquisa, inovação e desenvolvimento de ideias no ambiente universitário.



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