POLÍTICA
Por que o polêmico Quaquá, vitorioso em Maricá, é o exemplo do PT que dá certo
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1 ano atrásem
Ludmilla de Lima
Antes mesmo de o último voto ser depositado nas urnas, o diagnóstico já estava dado: sem chances de emplacar uma única prefeitura de capital no primeiro turno, o PT sabia estar diante daqueles momentos em que era preciso cutucar fundo as raízes do fracasso. Uma resposta, porém, estava na ponta da língua, sentida na pele pelos candidatos que não conseguiram firmar vínculos com um naco do eleitorado com que sempre se deram tão bem — os estratos de renda mais baixos, uma fatia deles concentrada na ascendente porção evangélica da população. Mas, em meio à aridez, uma curiosa exceção despontou em Maricá, a 60 quilômetros do Rio de Janeiro, que há quase duas décadas vem recebendo impulso das vultosas cifras da exploração do pré-sal — tão generosas que tornam o local onde vivem 200 000 pessoas o campeão nacional de royalties.
A vitória por lá de Washington Quaquá, 53 anos, o vice-presidente nacional do PT, faz do município o recordista em gestões consecutivas em toda a história do partido — cinco ao todo. E a explicação, além da dinheirama que a profícua indústria do petróleo lhe fornece, está numa frase que o próprio Quaquá, ungido com 74% dos votos, disse a VEJA: “O caminho é fazer menos discursos de esquerda e partir para a prática”. Evidentemente que o alcaide de terceira viagem aprendeu a se promover como poucos e faz da capacidade de produzir polêmicas em série um trunfo (que tal o livro previsto para o fim do ano, Diálogos com a Utopia, em que afirma ser “de um tempo em que o PT priorizava a luta de classes, antes da pauta de comportamento, justamente o que cria laços com os mais pobres”?). Ele paga lá seu preço. Os poderosos círculos de Brasília, onde o deputado federal circula, já não lhe são tão receptivos, e voos mais ambiciosos no governo Lula não estão à mesa. “Quaquá briga com todo mundo, gosta de ostentar, e muita gente acaba não levando isso a sério. O jeito dele não ajuda”, avalia um graduado petista.
Isso posto, a cidade de Maricá tem sido lembrada pela Fundação Perseu Abramo, espécie de think tank vinculado à sigla, como um exemplo positivo em meio a um fenômeno maior e preocupante que a instituição vem apontando: o município que será novamente regido por Quaquá começou a aparecer em vídeos da instituição como um contraponto à inépcia do partido em se conectar com o público evangélico — um nó sinalizado há tempos, mas nunca desatado. “Em nossa avaliação, Maricá virou um bom case a ser ressaltado nesse sentido”, avalia Oliver Goiano, da Coordenação Nacional dos Evangélicos do PT.
Não é de hoje que Quaquá vem tentando fincar terreno entre os evangélicos, que pendem para um conjunto de valores conservadores que nunca pesou tanto na hora de votar quanto nos polarizados dias de hoje. Ainda no segundo mandato, o prefeito instituiu a Secretaria de Assuntos Religiosos, tão valiosa às lideranças das igrejas, desde sempre chefiada por algum pastor. “Ele se comprometeu com a gente e assim ganhou nosso respeito”, conta Sérgio Luis, à frente da Assembleia de Deus Ministério de Madureira de Maricá, o primeiro a comandar a secretaria. A principal missão da pasta é prover recursos para eventos como a Marcha para Jesus, que, em agosto, lotou as ruas de Maricá. Com uma rotina de cafés e almoços com pastores de variadas denominações (entre os 700 templos, predominam neopentecostais como Assembleia de Deus e Universal), Quaquá é percebido como alguém “à direita no espectro petista”, o que pega bem no nicho evangélico. “As igrejas, sobretudo as maiores, veem sua política com bons olhos porque ele não deixa que o identitarismo paute a esquerda”, explica Oliver Goiano.

Mas não é apenas a santa paz que reina na praiana paisagem maricaense. Onde há Quaquá, haverá polêmica — e eis que ele acalenta um sonho, muito criticado por uma ala mais progressista de pastores, de fundar sua própria igreja (lembrando que já incentiva com verbas públicas uma escola de samba e um time de futebol). O nome, já escolheu: Igreja Jesus Libertador, voltada especialmente a mulheres de periferia — e, de acordo com ele, bancada com recursos do próprio bolso. “É um projeto de base, que tem a consciência crítica como diferencial. De um Jesus que liberta, e não oprime”, explica Antonio Ferreirinha, responsável por tocar o futuro templo. Em plena campanha em 2022, a ideia foi alvejada pelo risco de dissolver a fronteira entre Estado e fé. Daí Quaquá ter pisado no freio. Uma vez eleito, voltou a toda com o projeto, apostando no crescimento da população local na casa de extraordinários 10% ao ano, o que embute a expansão evangélica. “Achar que fundar uma igreja vai criar uma aproximação com o segmento evangélico é um total desconhecimento de como ele funciona”, avalia Sérgio Dusilek, pastor batista.
Durante a campanha presidencial de 2022, Lula chegou a pedir a Quaquá que acionasse seus contatos evangélicos para promover um grande encontro com lideranças e fiéis em São Gonçalo, um populoso município vizinho a Maricá. O evento até juntou gente, mas nem de longe suavizou a fragorosa desvantagem de Lula frente ao oponente Jair Bolsonaro, que levou 69% dos votos dessa fatia no pleito. O problema persiste — 55% dos evangélicos reprovam hoje o governo, 10 pontos percentuais além da média nacional. A Fundação Perseu Abramo conta que, ciente da muralha que se avistava, lançou uma cartilha com orientações para minimizar os estragos entre esses eleitores. Na mesma toada, Lula anunciou com pompa, na terça-feira 15, a sanção de uma lei que estabelece 9 de junho como o Dia Nacional da Música Gospel. “Quero dar visibilidade ao importante papel da cultura e da fé de milhões de pessoas”, discursou o presidente no Planalto. Mas o exemplo de Maricá mostra que, para fazer mesmo a diferença, mais do que palavras de palanque, o PT precisará deixar de ser um pouco PT.
Publicado em VEJA de 18 de outubro de 2024, edição nº 2915
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POLÍTICA
A articulação para mudar quem define o teto de jur…
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7 meses atrásem
5 de maio de 2025Nicholas Shores
O Ministério da Fazenda e os principais bancos do país trabalham em uma articulação para transferir a definição do teto de juros das linhas de consignado para o Conselho Monetário Nacional (CMN).
A ideia é que o poder de decisão sobre o custo desse tipo de crédito fique com um órgão vocacionado para a análise da conjuntura econômica.
Compõem o CMN os titulares dos ministérios da Fazenda e do Planejamento e Orçamento e da presidência do Banco Central – que, atualmente, são Fernando Haddad, Simone Tebet e Gabriel Galípolo.
A oportunidade enxergada pelos defensores da mudança é a MP 1.292 de 2025, do chamado consignado CLT. O Congresso deve instalar a comissão mista que vai analisar a proposta na próxima quarta-feira.
Uma possibilidade seria aprovar uma emenda ao texto para transferir a função ao CMN.
Hoje, o poder de definir o teto de juros das diferentes linhas de empréstimo consignado está espalhado por alguns ministérios.
Cabe ao Conselho Nacional da Previdência Social (CNPS), presidido pelo ministro da Previdência Social, Wolney Queiroz, fixar o juro máximo cobrado no consignado para pensionistas e aposentados do INSS.
A ministra da Gestão e Inovação, Esther Dweck, é quem decide o teto para os empréstimos consignados contraídos por servidores públicos federais.
Na modalidade do consignado para beneficiários do BPC-Loas, a decisão cabe ao ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Wellington Dias.
Já no consignado de adiantamento do saque-aniversário do FGTS, é o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, que tem a palavra final sobre o juro máximo.
Atualmente, o teto de juros no consignado para aposentados do INSS é de 1,85% ao mês. No consignado de servidores públicos federais, o limite está fixado em 1,80% ao mês.
Segundo os defensores da transferência da decisão para o CMN, o teto “achatado” de juros faz com que, a partir de uma modelagem de risco de crédito, os bancos priorizem conceder empréstimos nessas linhas para quem ganha mais e tem menos idade – restringindo o acesso a crédito para uma parcela considerável do público-alvo desses consignados.
Ainda de acordo com essa lógica, com os contratos de juros futuros de dois anos beirando os 15% e a regra do Banco Central que proíbe que qualquer empréstimo consignado tenha rentabilidade negativa, a tendência é que o universo de tomadores elegíveis para os quais os bancos estejam dispostos a emprestar fique cada vez menor.
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