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Crítica O Uso da Fotografia de Annie Ernaux e Marc Marie – instantâneos de intimidade | Autobiografia e livro de memórias
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Sean O’Hagan
EUm 2021, a renomada autora francesa Annie Ernaux publicou Exterioresuma seleção aleatória de anotações de diário escritas enquanto ela morou por um tempo no subúrbio parisiense de Cergy-Pontoise. Destaca-se dos livros que fizeram dela a reputação de uma cronista destemida de sua própria vida e relacionamentos – como Paixão Simples (1993), Acontecendo (2001) e A história de uma garota (2020) – evitando a abordagem inabalavelmente íntima e semiautobiográfica que a ajudou a ganhar o prêmio Nobel de literatura em 2022. Em vez disso, como o próprio nome sugere, Exteriores é desapegado e voltado para fora. O seu objectivo, disse ela, era “descrever a realidade através dos olhos de um fotógrafo e perceber o mistério e a opacidade das vidas que encontrei”.
Apesar do título estranhamente acadêmico, O uso da fotografia – observe o singular – tem pouca relação com seu antecessor, sendo um retorno ao estilo intensamente pessoal pelo qual Ernaux é reverenciado. A diferença aqui é que, embora a lente esteja mais uma vez voltada para si mesma, as suas reflexões – sobre o desejo, a doença, a memória e a mortalidade invasora, bem como sobre a fotografia – são justapostas às do seu antigo amante Marc Marie, um jornalista e fotógrafo com quem ela teve um caso de amor prolongado e apaixonado em 2003. Em vez de diluir a intensidade de sua prosa, a conversa entre eles de alguma forma funciona.
O arco de seu relacionamento é esboçado em uma série de 14 instantâneos que são, em essência, 14 variações sobre um único assunto: suas roupas e sapatos descartados, espalhados pelo chão de vários apartamentos e quartos de hotel. Ao encontrar pela primeira vez esses restos dispersos do desastrado e apressado prelúdio de seu ato amoroso, Ernaux foi tomada, escreve ela, por “uma sensação de beleza e tristeza” e imediatamente foi procurar sua câmera para que “esse arranjo nascido do desejo e do acidente” não se concretizasse. simplesmente desaparecem se não forem registrados.
Certos elementos são recorrentes: seus mules elegantes, suas botas de trabalho desamarradas; as meias desenroladas, a calça jeans amassada. (Estranhamente, as fotos são impressas em preto e branco, apesar de haver diversas referências nos textos à cor das roupas e objetos.) Felizmente, o próprio ato sexual permanece totalmente fora de enquadramento, ambos sem dúvida conscientes. da insistência do filósofo francês Roland Barthes de que, na fotografia, o erótico deveria ser “uma espécie de além sutil”, evocando o desejo mais poderosamente pelo que sugere e não pelo que mostra.
Curiosamente, o ensaio inicial de Ernaux é uma resposta a uma fotografia que ela tirou, mas optou por não incluir: um close do pênis ereto de seu amante, no qual o flash da câmera “faz uma gota de esperma brilhar na ponta da glande, como um conta”. Acontece que a principal razão para a ausência de evidências visuais é a privacidade e não a propriedade – “Posso descrevê-lo, mas não poderia expô-lo aos olhos dos outros”.
O propósito das imagens quase mundanas que Ernaux e Marie escolheram incluir – a sua utilização principal, tal como sugerido no título definitivo do livro – reside, em grande parte, na prosa que inspiraram. Eles não são tanto aide-mémoires, mas traços melancólicos de seu desejo outrora fervoroso, mas agora dissipado, que Ernaux interroga retrospectivamente com seu jeito inimitável. A certa altura, Marie compara-os a um diário de “amor e morte”, mas é através da escrita sobre eles – melancólica, insistente, autoquestionadora – que os temas mais sombrios da mortalidade e da perda emergem plenamente.
“Quando começamos a tirar essas fotos, eu estava em tratamento para câncer de mama”, conta Ernaux, com naturalidade, em sua breve introdução. Algumas páginas depois, no primeiro ensaio propriamente dito, seu olhar forense revela os detalhes íntimos de sua primeira noite juntos, que, como todos os aspectos de sua vida naquela época, existiam à sombra de sua doença. “Eu não tirei minha peruca na cama. Eu não queria que ele visse minha careca. Como resultado da quimioterapia, meu púbis também ficou careca. Perto da minha axila havia uma espécie de tampa de cerveja protuberante, sob a pele, um cateter implantado ali no início do tratamento.”
O caso de amor deles é pontuado por visitas ao Instituto Curie e o livro detalha descrições viscerais de sua condição física e psicológica, seus tratamentos punitivos e sua aguda sensação de iminência da morte. Ao longo deste interregno intensificado, os seus acoplamentos intensos tornam-se uma espécie de desafio ao mesmo. Autopiedade, nem é preciso dizer, não é o estilo dela. “Eu contei a poucas pessoas sobre meu câncer”, ela escreve a certa altura. “Eu não queria participar do tipo de simpatia que nunca poderia esconder, sempre que expressada, o fato óbvio de que para os outros eu havia me tornado outra pessoa. Eu pude ver minha futura ausência em seus olhos.”
Contra essas passagens de percepção e revelação nítida, Marie de alguma forma se mantém como colaboradora. A sua escrita está sintonizada com os aspectos formais das fotografias, mas também com os seus limites em termos do que podem descrever ou evocar. Muitas vezes despertam fragmentos de memória da própria infância. “Minhas roupas não estão em lugar nenhum”, ele escreve sobre uma imagem. “É como se eu não estivesse lá, como se estivesse ausente do mundo como estive em todos aqueles Natais tristes.” Foi só quando li retrospectivamente a biografia do autor de uma única linha no início do livro, na qual ele é mencionado no pretérito, que percebi que Marie não está mais entre nós. Ele morreu em 2022. (O livro foi publicado pela primeira vez na França em 2005.) Ernaux disse recentemente a um entrevistador: “Fui notificado de sua morte por uma carta enviada a mim por seu cardiologista”. Sua ausência confere outra camada de melancolia às lembranças compartilhadas.
No final do livro, Ernaux faz a si mesma a pergunta impossível: “Como concebo a minha morte… a minha inexistência?” Isso, por sua vez, precipita uma breve meditação filosófica sobre o inimaginável. “Nada do que nos espera É imaginável”, reflecte ela, “mas a questão é essa: não haverá mais espera. Ou memória. É esta “sombra do nada”, conclui, que informa O uso da fotografia e, de fato, todo o seu trabalho. Sem isso, afirma ela, “a escrita, mesmo a mais aquiescente à beleza do mundo, não contém realmente nada de útil para os vivos”.
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Ufac realiza formatura de alunos do CAp pela 1ª vez no campus-sede — Universidade Federal do Acre
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30 de janeiro de 2026A Ufac realizou a cerimônia de certificação dos estudantes concluintes do ensino médio do Colégio de Aplicação (CAp), referente ao ano letivo de 2025. Pela primeira vez, a solenidade ocorreu no campus-sede, na noite dessa quinta-feira, 29, no Teatro Universitário, e marcou o encerramento de uma etapa da formação educacional de jovens que agora seguem rumo a novos desafios acadêmicos e profissionais.
A entrada da turma Nexus, formada pelos concluintes do 3º ano, foi acompanhada pela reitora Guida Aquino; pelo diretor do CAp, Cleilton França dos Santos; pela vice-diretora e patronesse da turma, Alessandra Lima Peres de Oliveira; pelo paraninfo, Gilberto Francisco Alves de Melo; pelos homenageados: professores Floripes Silva Rebouças e Dionatas Ulises de Oliveira Meneguetti; além da inspetora homenageada Suzana dos Santos Cabral.

Guida destacou a importância do momento para os estudantes, suas famílias e toda a comunidade escolar. Ela parabenizou os formandos pela conquista e reconheceu o papel essencial dos professores, da equipe pedagógica e dos familiares ao longo da caminhada. “Tenho certeza de que esses jovens seguem preparados para os próximos desafios, levando consigo os valores da educação pública, do conhecimento e da cidadania. Que este seja apenas o início de uma trajetória repleta de conquistas. A Ufac continua de portas abertas e aguarda vocês.”

Durante o ato simbólico da colocação do capelo, os concluintes reafirmaram os valores que orientaram sua trajetória escolar. Em nome da turma, a estudante Isabelly Bevilaqua Rodrigues fez o discurso de oradora.
A cerimônia seguiu com a entrega dos diplomas e as homenagens aos professores e profissionais da escola indicados pelos concluintes, encerrando a noite com o registro da foto oficial da turma.
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Especialização em Enfermagem Obstétrica tem aula inaugural — Universidade Federal do Acre
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27 de janeiro de 2026O curso de especialização em Enfermagem Obstétrica teve sua aula inaugural nesta terça-feira, 27, na sala Pedro Martinello do Centro de Convenções, campus-sede da Ufac. O curso é promovido pela Universidade Federal de Minas Gerais, com financiamento do Ministério da Saúde, no âmbito da Rede Alyne; a Ufac é um dos 39 polos que sedia essa formação em nível nacional.
A especialização é presencial, com duração de 16 meses e carga horária de 720 horas; tem como objetivo a formação e qualificação de 21 enfermeiros que já atuam no cuidado à saúde da mulher, preparando-os para a atuação como enfermeiros obstetras. A maior parte dos profissionais participantes é oriunda do interior do Estado do Acre, com predominância da regional do Juruá.
“Isso representa um avanço estratégico para o fortalecimento da atenção obstétrica qualificada nas regiões mais afastadas da capital”, disse a coordenadora local do curso, professora Sheley Lima, que também ressaltou a relevância institucional e social da ação, que está alinhada às políticas nacionais de fortalecimento da atenção à saúde da mulher e de redução da morbimortalidade materna.
A aula inaugural foi ministrada pela professora Ruth Silva Lima da Costa, com o tema “Gravidez na Adolescência e Near Miss Neonatal na Região Norte: Dados da Pesquisa Nascer no Brasil 2”. Ela é doutora em Ciências da Saúde pela Fiocruz, enfermeira da Ufac e docente da Uninorte.
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Calendário 2026 do Acre: Veja o calendário do Governo e Judiciário que vai ditar o ritmo do ano
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20 de janeiro de 2026Clique aqui para baixar o calendário estadual completo: Decreto 11.809, Calendário 2026 Acre, ed. 14.173-B, de 22.12.2025
Há quem organize a vida por metas, há quem organize por boletos… e existe um grupo que planeja o ano inteiro por uma régua silenciosa, porém poderosa: o calendário oficial. Desde início de janeiro, essa régua ganhou forma no Acre com dois instrumentos que, na prática, definem como o Estado vai pulsar em 2026 — entre atendimentos, plantões, prazos, audiências e aquele respiro estratégico entre uma data e outra.
De um lado, o Governo do Estado publicou o Decreto nº 11.809, de 22 de dezembro de 2025, fixando feriados e pontos facultativos de 2026 para os órgãos do Poder Executivo, do dia 1º de janeiro ao último dia do ano, com a ressalva de que serviços essenciais não podem parar.
Do outro, o Tribunal de Justiça do Acre respondeu com a sua própria cartografia do tempo: a Portaria nº 6569/2025, que institui o calendário do Poder Judiciário acreano para 2026, preservando o funcionamento em regime de plantão sempre que não houver expediente. O texto aparece no DJe (edição nº 7.925) e também em versão integral, como documento administrativo autônomo.
Clique aqui para baixar o calendário forense completo: DJE – Portaria 6.5692025, edição 7.925, 22.12.2025
O “mapa do descanso” tem regras — e tem exceções
No calendário do Executivo, as datas nacionais aparecem como pilares já conhecidos (como Confraternização Universal, Tiradentes, Dia do Trabalho, Independência, Natal), mas o decreto também reforça a identidade local com feriados estaduais e pontos facultativos típicos do Acre.
Chamam atenção duas engrenagens que costumam passar despercebidas fora da rotina pública:
- ponto facultativo não é sinônimo de folga garantida — a chefia pode convocar para expediente normal por necessidade do serviço;
- quando o servidor é convocado nesses dias, o decreto prevê dispensa de compensação para quem cumprir horário no ponto facultativo.
No Judiciário, a lógica é parecida no objetivo (manter o Estado funcionando), mas diferente na mecânica. A Portaria do TJAC prevê expressamente que, havendo necessidade, pode haver convocação em regime de plantão, respeitando-se o direito à compensação de horas, conforme regramento administrativo interno.
Quando o município faz aniversário, a Justiça muda o passo
O “calendário do fórum” também conversa com o mapa das cidades. A Portaria prevê que, em feriado municipal por aniversário do município, não haverá expediente normal nas comarcas correspondentes — apenas plantão. E, quando o município declara ponto facultativo local, a regra traz até prazo de comunicação no interior: pelo menos 72 horas de antecedência para informar se haverá adesão.
É o tipo de detalhe que não vira manchete — mas vira realidade para quem depende de balcão, distribuição, atendimento e rotina de cartório.
Um ano que já começa “com cara de planejamento”
Logo na largada, o Executivo lista 1º de janeiro como feriado nacional e já prevê, para 2 de janeiro, ponto facultativo (por decreto específico citado no anexo). Também aparecem o Carnaval e a Quarta-feira de Cinzas como pontos facultativos, desenhando, desde cedo, o recorte de semanas que tendem a ser mais curtas e mais estratégicas.
No Judiciário, a Portaria organiza o mesmo período com olhar forense — e, além de datas comuns ao calendário civil, agrega as rotinas próprias do Poder Judiciário, preservando a prestação jurisdicional via plantões e regras de compensação.
Rio Branco também entra no compasso de 2026
Para além do calendário estadual e do Judiciário, a capital também oficializou seu próprio “mapa do tempo”: o Prefeito de Rio Branco editou o Decreto Municipal nº 3.452, de 30/12/2025, estabelecendo os feriados e pontos facultativos de 2026 para os órgãos e entidades do Poder Executivo Municipal, com referência expressa ao calendário do Estado.
Na prática, a cidade reforça o mesmo recado institucional: serviços essenciais não param, funcionando por escala ou plantão, e os gestores ficam autorizados a convocar servidores em dias de ponto facultativo, sem exigência de compensação para quem cumprir expediente. No anexo, aparecem datas que impactam diretamente a rotina da população, como o Carnaval (16 a 18/02, ponto facultativo), o Dia do Servidor Público (28/10, ponto facultativo) e o Aniversário de Rio Branco (28/12, feriado municipal) — fechando o ano com a véspera de Ano Novo (31/12, ponto facultativo).
Clique aqui para baixar o calendário municipal completo: DOE, edição 3.452, de 30.12.2025 – Calendário Prefeitura de Rio Branco-AC
Por que isso importa
O calendário oficial é mais do que uma lista de “dias marcados”: ele é o roteiro do funcionamento do Estado. Para o cidadão, significa previsibilidade; para advogados e jurisdicionados, significa atenção ao modo como cada órgão funcionará em datas críticas; para gestores, significa logística e escala; e para o próprio Acre, significa um desenho institucional que equilibra tradição, trabalho e continuidade.
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