O dia amanheceu gris e triste como é comum no início da chuvosa estação primaveril de Brasília. Despertamos com a notícia de que o cineasta Vladimir Carvalho havia falecido na madrugada deste 24 de outubro aos 89 anos. Alguns dias antes, o realizador do clássico “O País de São Saruê” experimentara uma das grandes alegrias de sua vida ao tomar conhecimento de que a sua Fundação Cinememória podia ser finalmente abrigada num dos espaços do Centro Cultural Banco do Brasil, o CCBB da capital. Era uma luta solitária de décadas.
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Este regozijo, quase júbilo, está documentado na entrevista que deu para a jornalista Márcia Zarur momentos antes de sentir forte indisposição e ser encaminhado para um hospital. Alegria e dor, paradoxo funesto. Ninguém de sua convivência entrevia o que estava para acontecer. Dinâmico, lúcido, saúde de ferro, Vladimir era o esteio, um dos dínamos da atividade cinematográfica da cidade que escolheu para viver e uma referência incontornável do cinema documental brasileiro.
Cineasta, militante, o realizador de inúmeros filmes memoráveis era reconhecido aqui no país e fora dele como um dos grandes do cinema de não ficção. “The Social Documentary in Latin América”, editado por Julianne Burton para a Universidade de Pittsburgh, dedica a ele generosas páginas no capítulo escrito por Jean-Claude Bernardet.
Aqui cabe a pergunta: o que seria do cinema documentário sem a presença de Vladimir Carvalho? Evidentemente uma parte da pergunta já está respondida à medida que décadas e décadas de produção foram se desenvolvendo. Mas o fato é que ele, através de sua atuação política na Associação Brasileira de Documentaristas e em várias outras entidades nacionais, ajudou a criar muitas das bases que estão na origem das estruturas que proporcionaram e ainda proporcionam a continuidade da atividade cinematográfica na capital e no país. Criações de cotas regionais, editais regionais e nacionais foram conquistas inauditas especialmente se levamos em conta as condições políticas adversas. Era o tempo das ditaduras militares, vocês se lembram, não é mesmo?
Vladimir soube navegar nessa soturna e turbulenta circunstância histórica para construir uma das mais sólidas cinematografias do cinema documental. Isso desde o início, quando faz parte da equipe de “Aruanda”, de Linduarte Noronha, curta seminal que inaugura o documentário brasileiro moderno (e maduro), citado por Glauber Rocha como uma de suas influências e referência para a eclosão do Cinema Novo.
Vale assinalar que Carvalho está nos créditos do filme de forma insatisfatória, não fazendo jus à importância que teve para a construção da narrativa da obra. Mas isso é outra história. Com o singelo e belo “Romeiros da Guia”, de 1962, faz sua estreia na direção; depois, em 1968, com “A Bolandeira”, ambos com um quê da pureza poética do cinema de Humberto Mauro, reafirma e refina seu estilo dos primeiros tempos.
Na equipe de Eduardo Coutinho
A circunstância bicuda da ditadura faz a vida de Vladimir dar um salto duplo carpado. Ele integra a equipe de filmagem de “Cabra marcado para morrer”, de Eduardo Coutinho, filme maldito, censurado pelos militares e só concluído muitos anos depois. Era o final dos anos 1960. Entre “A Bolandeira” e “Cabra marcado”, Vladimir Carvalho faz “O país de São Saruê”, obra maestra, de referência e – pode-se mesmo dizer – inclassificável na história do cinema documentário brasileiro.
Ao mesmo tempo impressionista, expressionista, realista, hiper-realista chegando mesmo a flertar com o realismo fantástico, “O País de São Saruê” reúne muitas das virtudes do cinema que Vladimir desenvolveria nos anos seguintes em longas e curtas-metragens. Mas é “A Bolandeira” que o leva a Brasília, primeiro como participante do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, depois por circunstâncias rocambolescas, como professor de Cinema da Universidade de Brasília.
A partir dos anos 70, Vladimir divide sua obra entre filmes “nordestinos” e “brasilienses”. Seu cartão de visitas na capital é o interessantíssimo “Vestibular 70”, curta que ganha uma aura atmosférica, quase esotérica, em função da pontuação musical
erudita-contemporânea do compositor Conrado Silva. Agora Vladimir estava “lá e cá”. O brilhante “A pedra da riqueza” (1975) metaforiza essa dualidade ao fazer um funcionário da UnB ser transportado de Brasília para um garimpo de xelita na Paraíba através da tela de uma moviola!
Da mesma forma que em “Vestibular 70”, a pontuação musical culta de Fernando Cerqueira dá conotação vanguardista à obra ao mesmo tempo áspera, seca e telúrica.
Realizador dos longas “O Engenho de Zé Lins” (2007),
“O homem de Areia” (1982) – música concreta de J. Lins –, “O Evangelho segundo Teotônio” (1984) e “Cícero Dias – O compadre de Picasso” (2016), em todos eles Vladimir afirma suas raízes culturais, suas convicções políticas de esquerda e sua solidariedade aos desvalidos e deserdados da sorte. Da mesma maneira, ele não deixa de dar atenção aos perseguidos ideológicos das instâncias culturais. Essas convicções estão presentes respectivamente em “Conterrâneos velhos de guerra” (1991) – sobre a marginalização dos operários que construíram Brasília – e em “Barra 68, sem perder a ternura” (2000), sobre a invasão do campus da UnB pelos militares. Ambos são filmes de memória.
Mas há também um mergulho na cultura da região do Cntro-oeste, que chamava poeticamente de “um sertão molhado”, e do entorno de Brasília, como atestam “Quilombo” (1975) e “Mutirão” (1976). O seu olhar “realista” nunca é reducionista. Apesar de crítico em relação à exploração do homem pelo homem – aludindo aqui a um viés marxista – esse seu “realismo” vem sempre acompanhado de inserções metalinguísticas – como o destelhamento da casa de um personagem de “Quilombo”, revelando o aparato cinematográfico – e de inserções ficcionais, como em “O Evangelho segundo Teotônio”, na sequência das reminiscências do senador: a voz off de Teotônio adulto alude a sua origem de homem do campo quando, ainda criança, colocava o ouvido no chão para escutar o milho rebentar debaixo da terra. “Uma sinfonia.., ploquete, ploquete, ploquete….”, ou em “O Engenho de Zé Lins” nas cenas que dramatizam a infância do escritor. Esses aspectos de linguagem vêm sempre investidos de “um sopro lírico”, como definiu certa vez David Neves.
E assim, a obra multifacetada de Vladimir toma uma direção desconcertante, um “golpe de teatro”, como quando resolve fazer “Rock Brasília – Era de Ouro” (2011), ele de uma geração inteiramente distinta. Vladimir tinha, e teve, a capacidade mágica de fazer entrever – através da continuidade regular de sua produção – o pioneiro e revolucionário curso de cinema da Universidade de Brasília idealizado por Darcy Ribeiro e levado adiante por Paulo Emílio Salles Gomes, Nélson Pereira dos Santos, Lucila e Jean-Claude Bernardet. A segunda de suas capacidades mágicas era ser admirado e querido pelas gerações que o seguiram. Assim como os Beatles.
Vladimir nos deixou. Não, Vladimir não nos deixou. Quem viver verá. Cito as palavras de Alberto Moravia no funeral de Pier Paolo Pasolini ao se referir à obra do diretor italiano, que chamou de um realismo arquetípico, ao mesmo tempo gentil e misterioso, portanto a-histórico.
SÉRGIO MORICONI é professor, crítico de cinema e diretor de documentários como “Athos”
Amir Labaki é criador e curador do festival internacional de documentários “É Tudo Verdade”
arquivo
“Expandiu como poucos o Brasil visto pelo cinema”
“Vladimir Carvalho é o mais importante cineasta dedicado exclusivamente ao documentário da história do cinema brasileiro. Em mais de seis décadas de produção, com cerca de três dezenas de filmes entre curtas e longas-metragens, Vladimir expandiu como poucos o Brasil visto pelo cinema e a própria noção de cinema no Brasil. Sua produção tem dois eixos principais: um nordestino, outro brasiliense. Os filmes que sintetizam o primeiro são o curta “A Bolandeira” (1969) e seu primeiro longa, “O País de São Saruê” (1971), ambos tratando das mutações socioculturais do Nordeste, mantendo-se a injustiça como base.
O eixo centrado em Brasília tem por obra-prima “Conterrâneos Velhos de Guerra” (1990), sobre a saga e as chagas da construção da nova capital federal por nordestinos e nordestinas. A imensa diversidade formal da obra de Vladimir foi fundamental para a compreensão por aqui da privilegiada liberdade estética propiciada pelo documentário. Ele formou e inspirou gerações de cineastas e, emblema também de sua generosidade irrefreável, foi essencial parceiro na realização de documentários capitais como o curta “Aruanda” (1959) de Linduarte Noronha e o longa “Cabra Marcado Para Morrer” (1984) de Eduardo Coutinho. Muito me honra o convívio estreito em especial nestas três décadas de É Tudo Verdade.”
Amir Labaki é criador e curador do festival internacional de documentários “É Tudo Verdade”
João Moreira Salles é documentarista, diretor de filmes como “Santiago” e “No intenso agora”
cale/divulgação
“afirmou a autonomia do cinema de não ficção”
“Todo documentarista brasileiro deve muito a Vladimir Carvalho. Se o gênero é hoje a casa de muita gente, em boa parte isso é obra dele. Vladimir foi um dos raríssimos cineastas da sua geração que não sentiu a necessidade de enveredar pela ficção. Muito antes de o documentário virar um gênero respeitável entre nós, ele já se dizia documentarista, afirmando a autonomia do cinema de não ficção. Essa tomada de posição ajudou o documentário a se tornar um destino, não uma escala. Com isso, Vladimir nos deu licença para sermos tão somente documentaristas. Numa nota mais pessoal, devo a Vladimir o fato de ele ter levado o seu irmão Walter para o cinema. Waltinho, como o chamam os amigos, foi uma das pessoas mais importantes da minha vida de documentarista. Vladimir me deu esse presente.”
João Moreira Salles é documentarista, diretor de filmes como “Santiago” e “No intenso agora”
As escolas da rede municipal realizam visitas guiadas aos espaços temáticos montados especialmente para o evento. A programação inclui dois planetários, salas ambientadas, mostras de esqueletos de animais, estudos de células, exposição de animais de fazenda, jogos educativos e outras atividades voltadas à popularização da ciência.
A pró-reitora de Inovação e Tecnologia, Almecina Balbino, acompanhou o evento. “O Universo VET evidencia três pilares fundamentais: pesquisa, que é a base do que fazemos; extensão, que leva o conhecimento para além dos muros da Ufac; e inovação, essencial para o avanço das áreas científicas”, afirmou. “Tecnologias como robótica e inteligência artificial mostram como a inovação transforma nossa capacidade de pesquisa e ensino.”
A coordenadora do Universo VET, professora Tamyres Izarelly, destacou o caráter formativo e extensionista da iniciativa. “Estamos na quarta edição e conseguimos atender à comunidade interna e externa, que está bastante engajada no projeto”, afirmou. “Todo o curso de Medicina Veterinária participa, além de colaboradores da Química, Engenharia Elétrica e outras áreas que abraçaram o projeto para complementá-lo.”
Ela também reforçou o compromisso da universidade com a democratização do conhecimento. “Nosso objetivo é proporcionar um dia diferente, com aprendizado, diversão, jogos e experiências que muitos estudantes não têm a oportunidade de vivenciar em sala de aula”, disse. “A extensão é um dos pilares da universidade, e é ela que move nossas ações aqui.”
A programação do Universo VET segue ao longo do dia, com atividades interativas para estudantes e visitantes.
Doutorandos do Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade e Biotecnologia da Amazônia Legal (Rede Bionorte) apresentaram, na última quarta-feira, 19, propostas para o primeiro Plano de Prevenção e Ações de Combate a Incêndios voltado ao campus sede e ao Parque Zoobotânico da Universidade Federal do Acre (Ufac). A atividade foi realizada na sala ambiente do PZ, como resultado da disciplina “Fundamentos de Geoinformação e Representação Gráfica para a Análise Ambiental”, ministrada pelo professor Rodrigo Serrano.
A ação marca a primeira iniciativa formalizada voltada à proteção do maior fragmento urbano de floresta em Rio Branco. As propostas foram desenvolvidas com o apoio de servidores do PZ e utilizaram ferramentas como o QGIS, mapas mentais e dados de campo.
Entre os produtos apresentados estão o Mapa de Risco de Fogo, com análise de vegetação, áreas urbanas e tráfego humano, e o Mapa de Rotas e Pontos de Água, com trilhas de evacuação e açudes úteis no combate ao fogo.
Os estudos sugerem a criação de um Plano Permanente com ações como: Parcerias com o Corpo de Bombeiros; Definição de rotas de fuga e acessos de emergência; Manutenção de aceiros e sinalização; Instalação de hidrantes ou reservatórios móveis; Monitoramento por drones; Formação de brigada voluntária e contratação de brigadistas em período de estiagem.
O Parque Zoobotânico abriga 345 espécies florestais e 402 de fauna silvestre. As medidas visam garantir a segurança da área, que integra o patrimônio ambiental da universidade.
“É importante registrar essa iniciativa acadêmica voltada à proteção do Campus Sede e do PZ”, disse Harley Araújo da Silva, coordenador do Parque Zoobotânico. Ele destacou “a sensibilidade do professor Rodrigo Serrano ao propor o desenvolvimento do trabalho em uma área da própria universidade, permitindo que os doutorandos apliquem conhecimentos técnicos de forma concreta e contribuam diretamente para a gestão e segurança” do espaço.
Participaram da atividade os doutorandos Alessandro, Francisco Bezerra, Moisés, Norma, Daniela Silva Tamwing Aguilar, David Pedroza Guimarães, Luana Alencar de Lima, Richarlly da Costa Silva e Rodrigo da Gama de Santana. A equipe contou com apoio dos servidores Nilson Alves Brilhante, Plínio Carlos Mitoso e Francisco Félix Amaral.
A Rede Educanorte é composta por universidades da região amazônica que ofertam doutorado em Educação de forma consorciada. A proposta é formar pesquisadores capazes de compreender e enfrentar os desafios educacionais da Amazônia, fortalecendo a pós-graduação na região.
Coordenadora geral da Rede Educanorte, a professora Fátima Matos, da Universidade Federal do Pará (UFPA), destacou que o seminário tem como objetivo avaliar as atividades realizadas no semestre e planejar os próximos passos. “A cada semestre, realizamos o seminário em um dos polos do programa. Aqui em Rio Branco, estamos conhecendo de perto a dinâmica do polo da Ufac, aproximando a gestão da Rede da reitoria local e permitindo que professores, coordenadores e alunos compartilhem experiências”, explicou. Para ela, cada edição contribui para consolidar o programa. “É uma forma de dizer à sociedade que temos um doutorado potente em Educação. Cada visita fortalece os polos e amplia o impacto do programa em nossas cidades e na região Norte.”
Durante a cerimônia, o professor Mark Clark Assen de Carvalho, coordenador do polo Rio Branco, reforçou o papel da Ufac na Rede. “Em 2022, nos credenciamos com sete docentes e passamos a ser um polo. Hoje somos dez professores, sendo dois do Campus Floresta, e temos 27 doutorandos em andamento e mais 13 aprovados no edital de 2025. Isso representa um avanço importante na qualificação de pesquisadores da região”, afirmou.
Mark Clark explicou ainda que o seminário é um espaço estratégico. “Esse encontro é uma prática da Rede, realizado semestralmente, para avaliação das atividades e planejamento do que será desenvolvido no próximo quadriênio. A nossa expectativa é ampliar o conceito na Avaliação Quadrienal da Capes, pois esse modelo de doutorado em rede é único no país e tem impacto relevante na formação docente da região norte”, pontuou.
Representando a reitora Guida Aquino, o diretor de pós-graduação da Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação (Propeg), Lisandro Juno Soares, destacou o compromisso institucional com os programas em rede. “A Ufac tem se esforçado para estruturar tanto seus programas próprios quanto os consorciados. O Educanorte mostra que é possível, mesmo com limitações orçamentárias, fortalecer a pós-graduação, utilizando estratégias como captação de recursos por emendas parlamentares e parcerias com agências de fomento”, disse.
Lisandro também ressaltou os impactos sociais do programa. “Esses doutores e doutoras retornam às suas comunidades, fortalecem redes de ensino e inspiram novas gerações a seguir na pesquisa. É uma formação que também gera impacto social e econômico.”
A coordenadora regional da Rede Educanorte, professora Ney Cristina Monteiro, da Universidade Federal do Pará (UFPA), lembrou o esforço coletivo na criação do programa e reforçou o protagonismo da região norte. “O PGEDA é hoje o maior programa de pós-graduação da UFPA em número de docentes e discentes. Desde 2020, já formamos mais de 100 doutores. É um orgulho fazer parte dessa rede, que nasceu de uma mobilização conjunta das universidades amazônicas e que precisa ser fortalecida com melhores condições de funcionamento”, afirmou.
Participou também da mesa de abertura o vice-reitor da Ufac, Josimar Batista Ferreira.
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