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Como enfrentar a propaganda de um ditador

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Thomas Traumann

Em 1941, com Londres sob a blitz diárias das bombas nazistas, os britânicos souberam que um dos motivos usados pelos EUA para adiar a decisão de entrar na guerra era a crença de que havia uma divisão no Exército alemão. Relatórios da embaixada dos EUA em Berlim citavam as críticas ao partido nazista por uma rádio pirata apresentada por um suposto general alemão que se apresentava como Der Chef (o chefe). Preocupado, o primeiro-ministro britânico Winston Churchill enviou a Washington o cunhado da rainha Elizabeth para uma conversa com o presidente americano Franklin Delano Roosevelt. Der Chef, contou o enviado David Bowes-Lyon a Roosevelt, era uma farsa. A rádio era operado nos subúrbios de Londres e fazia parte da contrapropaganda britânica.

Capaz de enganar até os aliados, Der Chef foi uma criação do jornalista Sefton Delmer (1904-1979), que por quatro anos liderou uma equipe de publicitários, militares, atores e judeus refugiados que criaram programas de rádio em alemão para enfrentar a máquina de propaganda nazista. No livro “How to Win an Information War: The Propagandist Who Outwitted Hitler” (Como vencer a Guerra da informação: o propagandista que enganou Hitler, ainda sem tradução para o português, livro online a R$ 74,53), o escritor ucraniano naturalizado britânico Peter Pomerantsev descreve como Delmer se transformou de um correspondente festeiro em Berlim num dos estrategistas da propaganda britânica na Segunda Guerra.

Filho de australianos nascido em Berlim, Delmer viveu a euforia da propaganda alemã com a Primeira Guerra, como o patriotismo alemão afastou os amigos da família, a prisão do pai e o exílio em Londres. Anos depois, na República de Weimar, ele voltou a Berlim como correspondente do Daily Express, então o jornal de maior circulação no mundo, para uma vida de cafés e cabarés. Em fevereiro de 1929, ele viu Adolf Hitler discursando pela primeira vez e não se impressionou.

Um ano e uma brutal recessão depois, o ambiente era outro. Milhares de pessoas assistiam hipnotizadas o discurso populista que, como observou Delmer com o tempo, mantinha uma lógica: os primeiros dez minutos era uma “orgia de autopiedade”, falando sobre o sofrimento, humilhação e ressentimento do alemão comum com o acordo do pós-guerra. Depois vinham dez minutos de dedos acusadores para os culpados dessa situação: os judeus, os políticos liberais e o establishment que capitulou na Primeira Guerra. O ódio ia num crescendo até chegar aos dez minutos finais, no qual Hitler desenhava um futuro grandioso para o país baseado na sua conexão única com a alma do alemão comum, encerrando num grito de guerra contra os inimigos que pretendiam impedi-lo de chegar ao poder para fazer o bem para todos. É impossível não encontrar similaridades deste discurso esquemático com os de Donald Trump, Vladimir Putin e Marine Le Pen.

Com a curiosidade mundial sobre o novo personagem, Delmer se aproximou da elite nazista. A sua principal fonte, Erns Röhm, fundador da Sturmabteilung (SA), a primeira ala paramilitar do Partido Nazista, lhe conseguiu acesso a Hitler. Ele publica três entrevistas simpáticas a Hitler e se torna o único estrangeiro a viajar no avião do então candidato a presidente da Alemanha em 1932.

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Casado com a pintora e modelo Isabel Rawsthorne, o jornalista organizava festas em sua casa em Berlim com uma presença tão grande de nazis que a embaixada britânica lhe colocou como suspeito de ser agente alemão. Avisado, o Daily Express o transfere para Lisboa e Paris, onde ele seguiu fazendo festas até o raiar do sol.

Em 1941, depois de um ano e meio de guerra, Delmer foi contratado pela agência secreta governamental Political Warfare Executive para reorganizar a contrapropaganda britânica para a Alemanha e países ocupados. Como o regime nazista baseava sua comunicação de massa no rádio, a ação britânica se baseava em fazer programas apelando para “o lado bom” dos alemães, incluindo exilados comunistas defendendo uma revolta dos trabalhadores. Delmer descartou tudo. “Era necessário abordar a ligação da população alemã com os nazis pela raiz: a necessidade de pertencimento, o sadismo e a identidade simplificada que os nazistas ofereciam. Era preciso entrar no relacionamento dos alemães com os nazistas – e não lhes dizer como se comportar”, disse. “Temos de apelar para o innerer Schweinehund (literalmente cachorro-porco interior, expressão para a preguiça e fraqueza de cada um) de cada alemão”.

Escolhido por conhecer o núcleo nazista como nenhum outro britânico, Delmer defendeu que “não se pode conquistar o público sob a influência da propaganda autoritária dando-lhes sermões sobre democracia e decência ou tentando desmascarar as teorias da conspiração nazis. Fazer isso ignora o porquê as pessoas foram atraídas pela propaganda em primeiro lugar”. Ele queria falar com o alemão real, não aquele que os britânicos gostariam que ele fosse. É uma lição que vale até hoje.

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O primeiro sucesso do núcleo de contrainformação foi personagem Der Chef, um militar ultranacionalista, antissionista, que amava o Exército e desprezava os burocratas do partido nazi. Recheado de palavrões, as falas de Der Chef correspondiam ao arquétipo do que seria um oficial alemão.

Pomerantsev dá indicações de que a divisão entre o “exército bom” e o “partido mau” funcionou. Usando informações reais coletadas pelo serviço secreto britânico, Der Chef denunciava o número de champagnes tomados na última festa de um figurão do alto escalão ou quanto a mulher de outro burocrata havia gastado em roupas, enquanto a maior parte da população vivia sob as privações de guerra e os soldados enfrentaram balas nas trincheiras. Ao invés do heroísmo dos programas oficiais, a rádio-pirata retratava, corretamente, o front alemão com uma sucessão de fome, doença, piolhos, saudades de casa e medo.

Embora fosse proibido ouvir o programa, existem registros de que ele era tão popular que incomodou o ministro da propaganda nazi, Josef Goebbels, particularmente pela divulgação das orgias dos paramilitares da SS.

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Quando Der Chef foi desmascarado pelo serviço de espionagem alemão, Delmer criou um novo programa, dessa vez sem a intenção de parecer oficial. Soldatensender Calais transmitia em ondas-curtas o que os alemães gostariam de saber e que o governo lhes omitia num período em que a vitória já era impossível: nomes dos soldados tomados prisioneiros, leitura de cartas de soldados presos ou mortos em combate, dicas de como um militar poderia fingir uma doença para conseguir dispensa e as vantagens para um batalhão se render para os aliados em vez de se render aos soviéticos, que avançavam no front oriental.

Em 6 de julho de 1944, a Soldatensender Calais foi a primeira a informar os alemães sobre o dia D, “a muralha Atlântica foi penetrada em várias frentes”. A intenção era óbvia: baixar o moral das tropas, disseminar a responsabilização aos chefes nazistas pelo desastre na Alemanha, propagar o medo e incentivar deserções.

É impossível hoje medir o efeito da contrapropaganda britânica na moral e na coesão alemã, mas a intenção de Pomerantsev é usar o passado para entender o presente. Existe um livro dentro do livro, no qual o autor ucraniano ressalta as similaridades da propaganda hitlerista com a Rússia de Vladimir Putin. Autor do excelente “This in Not Propaganda” (também infelizmente não publicado no Brasil), Pomerantsev é um militante anti-Putin.

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Escrito no início da invasão à Ucrânia, “How to Win the Information War” tem uma conclusão dura: numa guerra, diz Demler, você faz qualquer coisa para não perder. Não é uma batalha para mostrar que os seus valores são melhores que os do inimigo, é como minar as crenças dos inimigos nos próprios valores.

Terminada a Guerra, Demler não conseguiu o emprego que queria, o de montar a propaganda para moldar de uma nova Alemanha. Com o início da Guerra Fria, e da divisão mundial entre EUA e URSS, ele assistiu a consequências de suas ações. Tentando formar a Alemanha Ocidental num muro que contrabalançasse o comunismo, os americanos rapidamente anistiaram milhares de oficiais sob o pretexto de que na Segunda Guerra o Exército apenas obedecia às ordens dos nazistas. A peça de propaganda inventada por Demler convenceu até os inimigos.



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“Estou muito envergonhado! Isto é uma indignidade inexplicável!” (Ciro Gomes, ex-ministro da Fazenda, usando as redes sociais para reclamar da troca de Carlos Lupi por Wolney Queiroz, seu desafeto no PDT, no comando do Ministério da Previdência Social) 


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Felipe Barbosa

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A articulação para mudar quem define o teto de jur…

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A articulação para mudar quem define o teto de jur...

Nicholas Shores

O Ministério da Fazenda e os principais bancos do país trabalham em uma articulação para transferir a definição do teto de juros das linhas de consignado para o Conselho Monetário Nacional (CMN). 

A ideia é que o poder de decisão sobre o custo desse tipo de crédito fique com um órgão vocacionado para a análise da conjuntura econômica. 

Compõem o CMN os titulares dos ministérios da Fazenda e do Planejamento e Orçamento e da presidência do Banco Central – que, atualmente, são Fernando Haddad, Simone Tebet e Gabriel Galípolo.

A oportunidade enxergada pelos defensores da mudança é a MP 1.292 de 2025, do chamado consignado CLT. O Congresso deve instalar a comissão mista que vai analisar a proposta na próxima quarta-feira. 

Uma possibilidade seria aprovar uma emenda ao texto para transferir a função ao CMN.

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Hoje, o poder de definir o teto de juros das diferentes linhas de empréstimo consignado está espalhado por alguns ministérios. 

Cabe ao Conselho Nacional da Previdência Social (CNPS), presidido pelo ministro da Previdência Social, Wolney Queiroz, fixar o juro máximo cobrado no consignado para pensionistas e aposentados do INSS.

A ministra da Gestão e Inovação, Esther Dweck, é quem decide o teto para os empréstimos consignados contraídos por servidores públicos federais.

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Na modalidade do consignado para beneficiários do BPC-Loas, a decisão cabe ao ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Wellington Dias.

Já no consignado de adiantamento do saque-aniversário do FGTS, é o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, que tem a palavra final sobre o juro máximo.

Atualmente, o teto de juros no consignado para aposentados do INSS é de 1,85% ao mês. No consignado de servidores públicos federais, o limite está fixado em 1,80% ao mês.

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Segundo os defensores da transferência da decisão para o CMN, o teto “achatado” de juros faz com que, a partir de uma modelagem de risco de crédito, os bancos priorizem conceder empréstimos nessas linhas para quem ganha mais e tem menos idade – restringindo o acesso a crédito para uma parcela considerável do público-alvo desses consignados.

Ainda de acordo com essa lógica, com os contratos de juros futuros de dois anos beirando os 15% e a regra do Banco Central que proíbe que qualquer empréstimo consignado tenha rentabilidade negativa, a tendência é que o universo de tomadores elegíveis para os quais os bancos estejam dispostos a emprestar fique cada vez menor.



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